<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/"><channel><title><![CDATA[André José]]></title><description><![CDATA[Tecnologia, Arte e Idéias]]></description><link>https://andre.guergolet.com.br/</link><image><url>https://andre.guergolet.com.br/favicon.png</url><title>André José</title><link>https://andre.guergolet.com.br/</link></image><generator>Ghost 5.82</generator><lastBuildDate>Thu, 02 Jul 2026 04:57:57 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://andre.guergolet.com.br/rss/" rel="self" type="application/rss+xml"/><ttl>60</ttl><item><title><![CDATA[Os três motores]]></title><description><![CDATA["A dedução prova que algo deve ser; a indução mostra que algo realmente é operante; a abdução apenas sugere que algo pode ser." (Peirce, Collected Papers 5.171)]]></description><link>https://andre.guergolet.com.br/os-tres-motores/</link><guid isPermaLink="false">6a4585c2c4e1ae0001d01163</guid><category><![CDATA[Reflexões]]></category><dc:creator><![CDATA[André Guergolet]]></dc:creator><pubDate>Wed, 01 Jul 2026 21:39:02 GMT</pubDate><media:content url="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/07/Gemini_Generated_Image_f4rfkzf4rfkzf4rf.png" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><em>Sobre como pensamos no trabalho, e como o trabalho atrapalha como pensamos.</em></blockquote><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/07/Gemini_Generated_Image_f4rfkzf4rfkzf4rf.png" alt="Os tr&#xEA;s motores"><p>A reuni&#xE3;o est&#xE1; marcada para uma hora. Tem oito pessoas na sala. O assunto &#xE9; uma decis&#xE3;o que precisa sair. Aos cinquenta minutos, ningu&#xE9;m decidiu nada. Algu&#xE9;m continua trazendo &quot;mais um dado importante&quot;. Outro insiste que &quot;precisa pensar melhor&quot;. Um terceiro j&#xE1; cravou a resposta na primeira frase e est&#xE1; irritado porque os outros n&#xE3;o chegaram l&#xE1; ainda. Um quarto n&#xE3;o falou e provavelmente vai sair sem ter formado opini&#xE3;o sobre coisa nenhuma.</p><p>Eu vejo essa cena h&#xE1; muitos anos. Acho que a maior parte das pessoas que est&#xE1; nessa sala n&#xE3;o percebe uma coisa simples: cada uma est&#xE1; usando um <strong>motor diferente</strong> para pensar, e ningu&#xE9;m combinou de usar o mesmo no mesmo momento.</p><p>Esse texto &#xE9; sobre esses motores. Vou apoiar a discuss&#xE3;o em autores que estudaram isso a s&#xE9;rio, porque a minha observa&#xE7;&#xE3;o sozinha n&#xE3;o fecha &#x2014; mas a gra&#xE7;a pra mim &#xE9; cruzar o que eu vejo no dia a dia com o que esses autores demonstraram. Quero tentar entender por que tanta gente boa, em tanto escrit&#xF3;rio bom, sai cansada com a sensa&#xE7;&#xE3;o de n&#xE3;o ter andado.</p><h2 id="os-tr%C3%AAs-motores">Os tr&#xEA;s motores</h2><p>Foi um fil&#xF3;sofo americano, Charles Sanders Peirce, quem nomeou os tr&#xEA;s motores com a clareza que ainda usamos hoje. Em uma frase de 1903 que vale a leitura calma, ele resumiu:</p><blockquote><em>&quot;A dedu&#xE7;&#xE3;o prova que algo <strong>deve ser</strong>; a indu&#xE7;&#xE3;o mostra que algo <strong>realmente &#xE9; operante</strong>; a abdu&#xE7;&#xE3;o apenas sugere que algo <strong>pode ser</strong>.&quot;</em> (Peirce, <em>Collected Papers</em> 5.171)</blockquote><p>Em palavras menos formais, pra mim:</p><p><strong>O primeiro motor &#xE9; o do detetive &#x2014; a indu&#xE7;&#xE3;o.</strong> Voc&#xEA; junta evid&#xEA;ncia, vai colecionando sinais, e quando tem uma pilha grande o bastante, percebe um padr&#xE3;o. &quot;Notei que toda vez que o cliente X liga, a reclama&#xE7;&#xE3;o vem do mesmo time.&quot; Esse jeito de pensar &#xE9; confort&#xE1;vel. Voc&#xEA; est&#xE1; sempre num &quot;ainda estou observando&quot;. N&#xE3;o fecha. N&#xE3;o erra grosso. Mas tamb&#xE9;m n&#xE3;o decide.</p><p><strong>O segundo motor &#xE9; o do m&#xE9;dico de pronto-socorro &#x2014; a abdu&#xE7;&#xE3;o.</strong> O cara olha tr&#xEA;s sintomas, olha o rel&#xF3;gio, e arrisca um diagn&#xF3;stico. Pode errar. Tem que estar pronto pra voltar atr&#xE1;s. Mas ele <em>salta</em>. Pega o que tem e prop&#xF5;e uma explica&#xE7;&#xE3;o que ningu&#xE9;m disse antes. Peirce foi enf&#xE1;tico sobre isso: pra ele, nenhuma ideia nova jamais chega &#xE0; ci&#xEA;ncia pela dedu&#xE7;&#xE3;o ou pela indu&#xE7;&#xE3;o &#x2014; ela chega pela abdu&#xE7;&#xE3;o. &#xC9; de onde vem tudo que &#xE9; novo. &#xC9; arriscado. E quando d&#xE1; certo, parece m&#xE1;gica.</p><p><strong>O terceiro motor &#xE9; o do contador &#x2014; a dedu&#xE7;&#xE3;o.</strong> Tem uma regra, tem um caso, ele aplica e diz: passa ou n&#xE3;o passa. &quot;O or&#xE7;amento &#xE9; esse, o pedido extrapola, ent&#xE3;o n&#xE3;o vai.&quot; N&#xE3;o tem espa&#xE7;o pra criatividade. N&#xE3;o precisa. O valor dele &#xE9; fechar. Decidir. P&#xF4;r ponto final. N&#xE3;o inventa nada novo &#x2014; a conclus&#xE3;o j&#xE1; estava dada nas premissas. Mas &#xE9; o motor do compromisso.</p><p>Os tr&#xEA;s s&#xE3;o necess&#xE1;rios. Nenhum m&#xE9;todo s&#xE9;rio dispensa nenhum dos tr&#xEA;s. O detetive descobre o padr&#xE3;o. O m&#xE9;dico arrisca a explica&#xE7;&#xE3;o. O contador fecha e libera.</p><p>O problema n&#xE3;o &#xE9; nenhum deles. O problema &#xE9; a hora de trocar de motor.</p><h2 id="o-ped%C3%A1gio-invis%C3%ADvel">O ped&#xE1;gio invis&#xED;vel</h2><p>Acho que ningu&#xE9;m me ensinou isso na escola, e provavelmente ningu&#xE9;m me ensinou no trabalho. Mas mudar de motor <em>custa</em>.</p><p>N&#xE3;o &#xE9; met&#xE1;fora. Daniel Kahneman, em <em>Thinking, Fast and Slow</em> (2011), mostrou que o esfor&#xE7;o deliberado de racioc&#xED;nio &#x2014; o que ele chama de Sistema 2 &#x2014; &#xE9; regido pela <strong>lei do menor esfor&#xE7;o</strong>: dadas v&#xE1;rias formas de chegar num objetivo, a gente puxa por padr&#xE3;o a menos custosa. E mais: alternar entre tarefas que exigem o Sistema 2 &#xE9; especialmente caro, sobretudo sob press&#xE3;o de tempo. A mudan&#xE7;a <em>em si</em> custa, e a gente paga inconscientemente.</p><p>Sair do detetive (que est&#xE1; confort&#xE1;vel, juntando mais um dado) pra entrar no m&#xE9;dico (que tem que arriscar uma explica&#xE7;&#xE3;o com o que tem) d&#xF3;i. E sair do m&#xE9;dico (que acabou de propor uma explica&#xE7;&#xE3;o que ele acha boa) pra entrar no contador (que vai matar duas outras hip&#xF3;teses e cravar a terceira) d&#xF3;i mais ainda.</p><p>Esse ped&#xE1;gio &#xE9; invis&#xED;vel. Ningu&#xE9;m v&#xEA;. Voc&#xEA; s&#xF3; sente, do lado de dentro, que &quot;travou&quot;. Que &quot;n&#xE3;o est&#xE1; saindo&quot;. Que a reuni&#xE3;o n&#xE3;o anda. Que voc&#xEA; ficou ali rodando, lendo o mesmo e-mail tr&#xEA;s vezes, olhando o mesmo gr&#xE1;fico, e n&#xE3;o decide.</p><p>Eu acho que a maior parte do que a gente chama de &quot;improdutividade&quot; no trabalho &#xE9; isso. N&#xE3;o &#xE9; falta de intelig&#xEA;ncia. N&#xE3;o &#xE9; pregui&#xE7;a. &#xC9; a pessoa pagando, sem saber, o ped&#xE1;gio de trocar de motor &#x2014; e como ela n&#xE3;o sabe que est&#xE1; pagando, atribui a sensa&#xE7;&#xE3;o de travamento a outra coisa qualquer. &quot;Estou cansado&quot;. &quot;Falta dado&quot;. &quot;Preciso de mais reuni&#xF5;es&quot;.</p><p>Kahneman tem outro conceito que cabe bem aqui, a <strong>facilidade cognitiva</strong> (<em>cognitive ease</em>). O c&#xE9;rebro confunde flu&#xEA;ncia com verdade. Quando algo vem f&#xE1;cil, com cara de pronto, a gente acredita mais. E quando algo exige troca de motor &#x2014; exige aquela hesita&#xE7;&#xE3;o desconfort&#xE1;vel de migrar do detetive pro m&#xE9;dico &#x2014; o c&#xE9;rebro interpreta o desconforto como sinal de que tem coisa errada, e n&#xE3;o como sinal de que tem coisa dif&#xED;cil. Por isso a gente foge pra mais um dado, pra mais uma reuni&#xE3;o, pra mais um caf&#xE9;. Tudo menos ficar no atrito.</p><h2 id="cada-pessoa-tem-um-motor-padr%C3%A3o">Cada pessoa tem um motor padr&#xE3;o?</h2><p>Penso que cada pessoa tem um motor que dispara primeiro. N&#xE3;o &#xE9; o &#xFA;nico que ela consegue usar. &#xC9; o que ela puxa por default quando o problema chega.</p><p>A pessoa do motor do detetive abre tudo. Quer mais entrevistas, mais pesquisa, mais conversa. Adora a fase de descoberta. Sabe quando o consultor errou o tom do briefing. Adia decis&#xE3;o. E quando o prazo aperta, em vez de fechar, ela pede prorroga&#xE7;&#xE3;o. Sempre tem mais um sinal pra olhar.</p><p>A pessoa do motor do m&#xE9;dico est&#xE1; sempre com uma hip&#xF3;tese pronta. Chega na reuni&#xE3;o com a resposta antes do problema ter sido descrito. Acerta com frequ&#xEA;ncia impressionante. E erra feio quando erra, porque j&#xE1; saltou e n&#xE3;o quer voltar. Tem ideia de produto novo toda semana. Come&#xE7;a muita coisa. Termina pouca.</p><p>A pessoa do motor do contador &#xE9; a que defende o or&#xE7;amento. N&#xE3;o sai dos crit&#xE9;rios. Manda no comit&#xEA;. Acha &quot;informal&quot; o time que abre as coisas no Miro. Vai ter dificuldade com qualquer reuni&#xE3;o onde a pergunta &#xE9; &quot;e se a gente fizesse diferente?&quot;. Vai querer saber as regras antes.</p><p>N&#xE3;o &#xE9; nenhum elogio nem ofensa. &#xC9; observa&#xE7;&#xE3;o. As tr&#xEA;s pessoas existem em qualquer time. E o desconforto que cada uma sente com a outra &#xE9;, no fundo, a dor de ver algu&#xE9;m usando um motor que ela n&#xE3;o usa por padr&#xE3;o.</p><p>Eu mesmo sou um abridor cr&#xF4;nico. Saio do detetive pro m&#xE9;dico com facilidade e vice versa &#x2014; adoro abrir e arriscar a explica&#xE7;&#xE3;o. Mas quando chega na hora do contador, fechar, matar as outras hip&#xF3;teses, sentar e cravar &#x2014; a&#xED; eu sofro. J&#xE1; comecei mais projeto do que terminei na minha vida.</p><p>Aqui vale destacar um achado de Keith Stanovich, psic&#xF3;logo cognitivo, em <em>What Intelligence Tests Miss</em> (2009): a <strong>racionalidade &#x2014; a capacidade de raciocinar bem &#x2014; &#xE9; estatisticamente independente da intelig&#xEA;ncia medida por QI</strong>. Ele cunhou um termo para isso, <em>disracionalia</em>: gente muito inteligente que decide muito mal. E descreve o ser humano como um <strong>avarento cognitivo</strong> (<em>cognitive miser</em>) &#x2014; por padr&#xE3;o, todo mundo gravita para o processamento de menor custo.</p><p>Isso muda o jogo. &quot;Fulano &#xE9; inteligente, devia conseguir fechar&quot; &#xE9; um diagn&#xF3;stico errado. A capacidade de transitar entre motores &#x2014; sobretudo o esfor&#xE7;o dedutivo de matar hip&#xF3;teses concorrentes e cravar uma &#x2014; &#xE9; uma habilidade <em>separada</em> da intelig&#xEA;ncia. N&#xE3;o &#xE9; dom. Tem gente brilhante que n&#xE3;o consegue. Tem gente menos brilhante que aprendeu a fazer.</p><p>Tem outro autor, Gary Klein, que ajuda a entender por que alguns saltam bem e outros mal. Em <em>Sources of Power</em> (1998), ele estudou bombeiros, enfermeiros de UTI, comandantes de batalha &#x2014; gente que decide r&#xE1;pido sob press&#xE3;o. Descobriu que o especialista decide bem porque carrega uma <strong>biblioteca mental de casos</strong> &#x2014; ele reconhece o padr&#xE3;o da situa&#xE7;&#xE3;o e salta para a a&#xE7;&#xE3;o adequada quase sem comparar op&#xE7;&#xF5;es. Klein chama isso de <em>recognition-primed decision</em>. Em outras palavras, o motor do m&#xE9;dico s&#xF3; &#xE9; bom em quem tem repert&#xF3;rio. Quem &#xE9; novato no dom&#xED;nio e tenta abduzir vai errar, n&#xE3;o porque &#xE9; burro, mas porque a biblioteca dele ainda &#xE9; pequena.</p><p>Isso me parece importante numa empresa, e quase ningu&#xE9;m leva em conta: a gente espera que o j&#xFA;nior &quot;tenha iniciativa&quot; e arrisque, e depois cobra quando ele arrisca errado. O que ele precisava era de mais tempo no detetive antes de entrar no m&#xE9;dico. N&#xE3;o tinha biblioteca pra saltar.</p><h2 id="o-escrit%C3%B3rio-te-for%C3%A7a-a-trocar-e-n%C3%A3o-te-ensina">O escrit&#xF3;rio te for&#xE7;a a trocar e n&#xE3;o te ensina</h2><p>O trabalho de escrit&#xF3;rio, do jeito que ele &#xE9; organizado, <strong>te obriga a trocar de motor o tempo todo</strong> &#x2014; e n&#xE3;o te ensina a fazer essa troca. Pior: ele finge que o trabalho importante &#xE9; s&#xF3; um dos motores.</p><p>A reuni&#xE3;o de entendimento quer voc&#xEA; no detetive.</p><p>A apresenta&#xE7;&#xE3;o ao comit&#xEA; quer voc&#xEA; no contador.</p><p>A sala de inova&#xE7;&#xE3;o quer voc&#xEA; no m&#xE9;dico.</p><p>E o e-mail entre uma coisa e outra te obriga a ficar pulando.</p><p>Voc&#xEA; sai de uma reuni&#xE3;o onde estava aberto, ouvindo cliente, no detetive, e vinte minutos depois entra numa onde tem que defender o or&#xE7;amento do trimestre que vem, no contador, e a pessoa que abre a porta espera que voc&#xEA; esteja firme, com argumento pronto. Como? Ningu&#xE9;m explicou como se faz isso. Voc&#xEA; s&#xF3; sente que chegou meio bobo na segunda reuni&#xE3;o e levou tr&#xEA;s quartos do tempo pra &quot;engatar&quot;. Aquilo era a troca de motor, mal feita, no susto.</p><p>Chris Argyris e Donald Sch&#xF6;n, em estudos cl&#xE1;ssicos de aprendizagem organizacional, descreveram o que chamaram de <strong>single-loop learning</strong> vs <strong>double-loop learning</strong>. No single-loop, a pessoa ou a organiza&#xE7;&#xE3;o recebe uma regra ou meta e otimiza dentro dela. No double-loop, ela questiona a pr&#xF3;pria regra. Argyris demonstrou repetidamente que organiza&#xE7;&#xF5;es sob press&#xE3;o tendem ao single-loop &#x2014; preenchem o artefato anterior como &quot;premissa dada&quot; e derivam o pr&#xF3;ximo passo, sem reabrir nada. Os autores chamaram esse comportamento de <strong>rotinas defensivas</strong> (<em>defensive routines</em>). N&#xE3;o &#xE9; m&#xE1;-f&#xE9;. &#xC9; como a organiza&#xE7;&#xE3;o se protege do desconforto da troca de motor.</p><p>Acho que essa &#xE9; uma das raz&#xF5;es pelas quais reuni&#xF5;es em sequ&#xEA;ncia s&#xE3;o t&#xE3;o destrutivas, e por que o pessoal que faz home office quase sempre relata estar mais cansado mentalmente: a troca constante de motor sem nenhum espa&#xE7;o pra pagar o ped&#xE1;gio, e uma cultura organizacional que recompensa quem fica no single-loop (n&#xE3;o questiona, entrega o que pediram) e penaliza quem entra no double-loop (questiona a premissa e atrasa o cronograma).</p><h2 id="os-comit%C3%AAs-s%C3%A3o-do-contador">Os comit&#xEA;s s&#xE3;o do contador</h2><p>Tem uma coisa que sempre me incomodou e que agora consigo nomear melhor.</p><p>Comit&#xEA; de investimento. Comit&#xEA; de projetos. Comit&#xEA; de or&#xE7;amento. Gate de aprova&#xE7;&#xE3;o. Checklist de release. Avalia&#xE7;&#xE3;o de desempenho. Tudo isso &#xE9; motor do contador. Aplica-se um crit&#xE9;rio, decide-se passa ou n&#xE3;o passa.</p><p>N&#xE3;o &#xE9; defeito. Comit&#xEA; de investimento <em>tem</em> que ser do contador. &#xC9; a fun&#xE7;&#xE3;o dele.</p><p>Roger Martin, na Rotman School of Management, descreveu essa tens&#xE3;o melhor que ningu&#xE9;m em <em>The Design of Business</em> (2009). Ele chama os dois polos de <strong>confiabilidade</strong> (<em>reliability</em> &#x2014; processo repet&#xED;vel, dedutivo, defens&#xE1;vel com dado do passado) e <strong>validade</strong> (<em>validity</em> &#x2014; fazer a coisa certa, o que exige abdu&#xE7;&#xE3;o e toler&#xE2;ncia ao risco). E a tese dele, emp&#xED;rica, &#xE9; dura: <strong>organiza&#xE7;&#xF5;es maduras sobre-otimizam confiabilidade e sufocam validade</strong>, porque a confiabilidade &#xE9; previs&#xED;vel e a validade n&#xE3;o tem como ser provada antes do fato. Martin chama isso de &quot;funil do conhecimento&quot;: mist&#xE9;rio &#x2192; heur&#xED;stica &#x2192; algoritmo. As empresas vivem do algoritmo (contador), mas o que as fez existir um dia foi a abdu&#xE7;&#xE3;o de algu&#xE9;m no n&#xED;vel do mist&#xE9;rio.</p><p>Quando a empresa inteira come&#xE7;a a achar que <strong>trabalho de verdade &#xE9; o trabalho do contador</strong>, a gente perde duas coisas. Primeiro, perde a paci&#xEA;ncia com a fase do detetive (que parece improdutiva porque n&#xE3;o decide nada). Segundo, perde a coragem para o m&#xE9;dico (que parece irrespons&#xE1;vel porque arrisca sem ter certeza).</p><p>E a&#xED; o que sobra? Sobra um monte de gente fingindo que est&#xE1; usando o motor do contador o tempo todo. Olha pra qualquer apresenta&#xE7;&#xE3;o corporativa: tem premissa, tem conclus&#xE3;o, tem recomenda&#xE7;&#xE3;o. Parece tudo deduzido com base em dado s&#xF3;lido. Mas se voc&#xEA; cutuca, na maioria das vezes algu&#xE9;m abduziu no chuveiro, encheu de gr&#xE1;fico depois, e vendeu como dedu&#xE7;&#xE3;o.</p><p>N&#xE3;o estou dizendo que isso &#xE9; desonesto. Estou dizendo que isso &#xE9; o que acontece quando a &#xFA;nica forma aceita de pensar publicamente &#xE9; a do contador. Os outros motores rodam, mas escondidos.</p><h2 id="a-ia-piorou-isso">A IA piorou isso</h2><p>Antes a gente pelo menos via o esfor&#xE7;o. A pessoa abriu o Excel, ficou tr&#xEA;s horas, voltou com a planilha. Voc&#xEA; sabia, mais ou menos, em que motor ela estava.</p><p>Agora a pessoa pede pra IA e em vinte segundos volta com uma an&#xE1;lise que parece dedu&#xE7;&#xE3;o perfeita. N&#xE3;o foi dedu&#xE7;&#xE3;o. Foi a IA fazendo um chute educado com cara de conclus&#xE3;o.</p><p>Aqui o Kahneman e o Stanovich se juntam contra a gente: a facilidade cognitiva (<em>cognitive ease</em>) faz a sa&#xED;da fluente parecer verdadeira, e o avaro cognitivo (<em>cognitive miser</em>) que mora em todo mundo agradece &#x2014; porque pular o esfor&#xE7;o &#xE9; o que ele queria. Resultado: a gente trata o texto pronto da IA como se fosse motor do contador, quando na verdade foi a IA abduzindo sozinha e vestindo de dedu&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Eu mesmo me peguei fazendo isso. Pedi ajuda pra IA pra &quot;estruturar uma an&#xE1;lise&quot; e o que ela me devolveu era na verdade tr&#xEA;s op&#xE7;&#xF5;es que ela inventou, vestidas de conclus&#xE3;o. Quase mandei pro time achando que tinha resolvido o problema. Resolvi nada. A IA abriu, no lugar onde eu deveria ter aberto. E eu ia carimbar a abertura dela como se fosse meu fechamento.</p><p>E pior: o m&#xFA;sculo de trocar de motor &#x2014; que j&#xE1; era fraco &#x2014; atrofia ainda mais. Porque a pessoa pula direto do problema pra resposta sem ter passado por nenhum dos tr&#xEA;s motores conscientemente.</p><h2 id="a-pergunta-que-eu-n%C3%A3o-consigo-responder">A pergunta que eu n&#xE3;o consigo responder</h2><p>Agora vem a parte chata.</p><p>Reconhecer os tr&#xEA;s motores &#xE9; uma coisa. <strong>Treinar</strong> os tr&#xEA;s motores &#xE9; outra. Treinar a <em>troca</em> entre eles &#xE9; uma terceira, ainda mais dif&#xED;cil.</p><p>Aqui tem um aviso importante, e quase todo mundo cai na armadilha que ele descreve. Em 2008, um grupo de psic&#xF3;logos cognitivos, examinando a ideia popular de que cada aluno tem um &quot;estilo de aprendizagem&quot; e que ensinar adaptado ao estilo dele melhora o resultado. Conclus&#xE3;o: <strong>n&#xE3;o h&#xE1; base de evid&#xEA;ncia adequada</strong> para isso. V&#xE1;rios estudos bem-feitos contradizem a hip&#xF3;tese. Adaptar o ensino ao &quot;estilo&quot; do aluno n&#xE3;o funciona.</p><p>Por que isso importa aqui? Porque a primeira intui&#xE7;&#xE3;o de qualquer gestor que entende o conceito dos tr&#xEA;s motores &#xE9; dizer: &quot;ah, ent&#xE3;o eu identifico o motor de cada pessoa e ensino do jeito dela&quot;. Pashler mostra que isso &#xE9; caminho errado.</p><p>A sa&#xED;da &#x2014; e aqui eu estou caminhando, n&#xE3;o tenho a resposta &#x2014; &#xE9; provavelmente o oposto: n&#xE3;o adaptar o ensino ao motor do aluno, mas <strong>dar a ele o vocabul&#xE1;rio pra perceber em que motor ele est&#xE1; e treinar a troca para os outros, de prop&#xF3;sito</strong>. Em vez de virar especialista no seu motor padr&#xE3;o, virar consciente da troca.</p><p>Mas mesmo essa dire&#xE7;&#xE3;o esbarra na pergunta concreta: como?</p><p>Eu, por exemplo, sei que sou ruim no contador. Saberia exercitar isso significa qu&#xEA;? Fazer mais checklist? Fazer mais matem&#xE1;tica? For&#xE7;ar prazo curto? N&#xE3;o sei. J&#xE1; tentei algumas dessas. Algumas funcionam um pouco. Nenhuma me transformou.</p><p>Eu vejo pessoas no trabalho que s&#xE3;o contadores puros e que n&#xE3;o conseguem abrir nem se a vida delas dependesse. O que faz algu&#xE9;m aprender a abrir? Mais brainstorm? Mais design thinking? Tirar a planilha da m&#xE3;o? Tudo isso me parece superficial.</p><p>E o m&#xE9;dico? Como se aprende a <em>saltar</em> com responsabilidade? A arriscar uma explica&#xE7;&#xE3;o que ainda n&#xE3;o est&#xE1; dada nos dados, mas estar pronto pra abandonar essa explica&#xE7;&#xE3;o se outra evid&#xEA;ncia aparecer? Como se ensina <strong>coragem com humildade</strong>? Klein mostrou que &#xE9; experi&#xEA;ncia &#x2014; repert&#xF3;rio de casos. Mas como se acelera repert&#xF3;rio, num escrit&#xF3;rio que n&#xE3;o te deixa errar?</p><p>A escola n&#xE3;o ensina nada disso. A faculdade tamb&#xE9;m n&#xE3;o. O treinamento corporativo trata como se fosse &quot;soft skill&quot; e d&#xE1; curso de &quot;tomada de decis&#xE3;o&quot; que &#xE9; s&#xF3; checklist disfar&#xE7;ado, ou seja, mais motor do contador querendo resolver o problema dos outros motores.</p><p>Eu queria saber. Acho que se eu soubesse, valia mais que metade do MBA que j&#xE1; fiz na vida.</p><p>Como se treina cada um dos tr&#xEA;s motores? E principalmente, como se treina a <em>troca</em> entre eles, que &#xE9; onde, na minha vis&#xE3;o, mora a maior parte do valor de uma cabe&#xE7;a boa?</p><p>Se voc&#xEA; souber, me conta.</p><p>Eu ainda estou pensando.</p><h2 id="leituras-citadas">Leituras citadas</h2><ul><li><strong>Peirce, C. S.</strong> <em>Collected Papers of Charles Sanders Peirce</em> (CP 5.171). Harvard University Press. Onde Peirce sintetiza dedu&#xE7;&#xE3;o, indu&#xE7;&#xE3;o e abdu&#xE7;&#xE3;o com a frase &quot;deve ser / &#xE9; operante / pode ser&quot;.</li><li><strong>Kahneman, D.</strong> <em>Thinking, Fast and Slow</em>. Farrar, Straus and Giroux, 2011. Sistemas 1 e 2, facilidade cognitiva, lei do menor esfor&#xE7;o, custo de altern&#xE2;ncia de tarefa.</li><li><strong>Stanovich, K. E.</strong> <em>What Intelligence Tests Miss: The Psychology of Rational Thought</em>. Yale University Press, 2009. Disracionalia, avaro cognitivo, independ&#xEA;ncia entre racionalidade e QI.</li><li><strong>Klein, G. A.</strong> <em>Sources of Power: How People Make Decisions</em>. MIT Press, 1998. Decis&#xE3;o primada por reconhecimento (RPD), expertise como biblioteca de padr&#xF5;es.</li><li><strong>Argyris, C.; Sch&#xF6;n, D. A.</strong> <em>Organizational Learning: A Theory of Action Perspective</em>. Addison-Wesley, 1978. Aprendizagem de ciclo &#xFA;nico e duplo, rotinas defensivas.</li><li><strong>Martin, R. L.</strong> <em>The Design of Business: Why Design Thinking Is the Next Competitive Advantage</em>. Harvard Business Press, 2009. Tens&#xE3;o confiabilidade &#xD7; validade, funil do conhecimento.</li><li><strong>Pashler, H.; McDaniel, M.; Rohrer, D.; Bjork, R.</strong> <em>Learning Styles: Concepts and Evidence</em>. Psychological Science in the Public Interest, 9(3), 105&#x2013;119, 2008. Aus&#xEA;ncia de evid&#xEA;ncia para a hip&#xF3;tese de adaptar ensino ao estilo do aluno.</li></ul>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sonhos Infantis]]></title><description><![CDATA[Crianças acordadas também sonham. Essa peça nasce daí — de um rosto que não está dormindo, mas claramente está em outro lugar.
]]></description><link>https://andre.guergolet.com.br/sonhos-infantis-1/</link><guid isPermaLink="false">6a13b6b295ad030001cc5f76</guid><category><![CDATA[Graffiti]]></category><category><![CDATA[Galeria]]></category><dc:creator><![CDATA[André Guergolet]]></dc:creator><pubDate>Tue, 26 May 2026 03:29:55 GMT</pubDate><media:content url="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/05/20260522_140158--1-.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/05/20260522_140158--1-.jpg" alt="Sonhos Infantis"><p>Crian&#xE7;as acordadas tamb&#xE9;m sonham. Essa pe&#xE7;a nasce da&#xED; &#x2014; de um rosto que n&#xE3;o est&#xE1; dormindo, mas claramente est&#xE1; em outro lugar.</p><p>Fui convidado pelo diretor da escola. Ele conhece meu trabalho, e isso j&#xE1; diz muita coisa: n&#xE3;o foi uma chamada gen&#xE9;rica, foi um convite de quem escolheu.</p><p>A escola era a Clovis de Lucca, em S&#xE3;o Bernardo do Campo. Na mesma sexta-feira, a Telef&#xF4;nica realizava ali o seu evento do Dia do Volunt&#xE1;rio. Dois projetos acontecendo lado a lado, cada um &#xE0; sua maneira, sem pedir nada em troca.</p><p>Ao meu lado estava o Guilherme &#x2014; o <strong>Gnom_Graff</strong> &#x2014; cuidando do port&#xE3;o da escola. Cada um no seu espa&#xE7;o, no seu ritmo, no mesmo sil&#xEA;ncio de quem trabalha com tinta e n&#xE3;o precisa de muito mais.</p><p>Essa pe&#xE7;a pertence &#xE0; s&#xE9;rie <em>Sonhos de Menina</em>, mas eu a chamei de <strong>Sonhos Infantis</strong>.</p><p>A diferen&#xE7;a &#xE9; pequena, mas importa. No <em>Sonhos de Menina</em>, as crian&#xE7;as dormem &#x2014; a mente viaja enquanto o corpo descansa. Aqui, a crian&#xE7;a est&#xE1; acordada. O olhar &#xE9; alegre, levemente pensativo. Est&#xE1; presente e ausente ao mesmo tempo, do jeito que crian&#xE7;a consegue ser sem esfor&#xE7;o nenhum.</p><p>O preto e branco &#xE9; o mesmo. A vida que acontece por tr&#xE1;s do rosto tamb&#xE9;m.</p><p>Tem um olho no graffiti.</p><p>Sempre desenhei olhos. &#xC9; uma das coisas que as pessoas associam ao meu trabalho antes de qualquer outra coisa. Nessa pe&#xE7;a ele aparece no muro em si &#x2014; separado do rosto, mas parte da composi&#xE7;&#xE3;o. Um olho de fora, olhando junto.</p><p>N&#xE3;o planejei muito a explica&#xE7;&#xE3;o. O olho estava l&#xE1; antes de qualquer justificativa.</p><p>Foi trabalho volunt&#xE1;rio. Como a Telef&#xF4;nica naquele dia, como o Guilherme, como qualquer coisa que se faz porque faz sentido, n&#xE3;o porque algu&#xE9;m pediu.</p><p>A escola ficou com um rosto novo na parede. Eu fiquei com a sensa&#xE7;&#xE3;o de ter estado onde devia estar.</p><figure class="kg-card kg-gallery-card kg-width-wide"><div class="kg-gallery-container"><div class="kg-gallery-row"><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/05/20260522_101408-1.jpg" width="2000" height="2667" loading="lazy" alt="Sonhos Infantis" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/05/20260522_101408-1.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/05/20260522_101408-1.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/05/20260522_101408-1.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/05/20260522_101408-1.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/05/20260522_151740-1.jpg" width="2000" height="2667" loading="lazy" alt="Sonhos Infantis" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/05/20260522_151740-1.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/05/20260522_151740-1.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/05/20260522_151740-1.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/05/20260522_151740-1.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div></div><div class="kg-gallery-row"><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/05/20260522_151911-1.jpg" width="2000" height="2667" loading="lazy" alt="Sonhos Infantis" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/05/20260522_151911-1.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/05/20260522_151911-1.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/05/20260522_151911-1.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/05/20260522_151911-1.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/05/20260522_151914-1.jpg" width="1462" height="1859" loading="lazy" alt="Sonhos Infantis" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/05/20260522_151914-1.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/05/20260522_151914-1.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/05/20260522_151914-1.jpg 1462w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div></div></div></figure>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Comunicação é Governança]]></title><description><![CDATA[A maioria das organizações trata comunicação como ferramenta. Algo que se usa para informar, convencer ou mobilizar. Uma função de suporte — importante, mas derivada. O que se comunica importa; como se comunica é detalhe de execução.
]]></description><link>https://andre.guergolet.com.br/comunicacao-e-governanca/</link><guid isPermaLink="false">69ee9557311a6c00017bdd17</guid><category><![CDATA[Reflexões]]></category><dc:creator><![CDATA[André Guergolet]]></dc:creator><pubDate>Sun, 26 Apr 2026 22:47:58 GMT</pubDate><media:content url="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/04/pexels-mikhail-nilov-6930549.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote>Por que a forma como uma organiza&#xE7;&#xE3;o fala define o quanto ela pode ser confiada com poder</blockquote><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/04/pexels-mikhail-nilov-6930549.jpg" alt="Comunica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; Governan&#xE7;a"><p>A maioria das organiza&#xE7;&#xF5;es trata comunica&#xE7;&#xE3;o como ferramenta. Algo que se usa para informar, convencer ou mobilizar. Uma fun&#xE7;&#xE3;o de suporte &#x2014; importante, mas derivada. O que se comunica importa; como se comunica &#xE9; detalhe de execu&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Essa vis&#xE3;o est&#xE1; errada. E o pre&#xE7;o de estar errada raramente aparece na linha que voc&#xEA; est&#xE1; olhando.</p><h2 id="o-problema-que-ningu%C3%A9m-chama-pelo-nome-certo">O problema que ningu&#xE9;m chama pelo nome certo</h2><p>Quando uma lideran&#xE7;a envia uma mensagem no tom errado, no canal errado, no hor&#xE1;rio errado &#x2014; o dano vis&#xED;vel &#xE9; pequeno. Um constrangimento. Um mal-estar. Talvez uma reclama&#xE7;&#xE3;o que some em 48 horas.</p><p>O dano invis&#xED;vel &#xE9; maior: cada vez que isso acontece, as pessoas aprendem algo sobre a organiza&#xE7;&#xE3;o. Aprendem que o poder ali n&#xE3;o tem rito. Que a autoridade &#xE9; exercida por impulso, n&#xE3;o por processo. Que as regras valem para quem est&#xE1; embaixo, n&#xE3;o para quem est&#xE1; no centro.</p><p>E quando as pessoas aprendem isso, algo muda no tecido da rela&#xE7;&#xE3;o. N&#xE3;o de forma dram&#xE1;tica &#x2014; de forma silenciosa. A confian&#xE7;a n&#xE3;o quebra. Ela vai embora.</p><hr><h2 id="autonomia-sem-rito-n%C3%A3o-%C3%A9-lideran%C3%A7a-%E2%80%94-%C3%A9-sorte">Autonomia sem rito n&#xE3;o &#xE9; lideran&#xE7;a &#x2014; &#xE9; sorte</h2><p>Existe uma confus&#xE3;o comum entre autonomia e aus&#xEA;ncia de processo. L&#xED;deres que operam por impulso frequentemente descrevem isso como agilidade. &quot;Eu agi r&#xE1;pido.&quot; &quot;Eu n&#xE3;o fico preso em burocracia.&quot; &quot;Eu resolvo na hora.&quot;</p><p>O problema n&#xE3;o &#xE9; a velocidade. O problema &#xE9; que autonomia sem rito &#xE9; indistingu&#xED;vel de arbitrariedade para quem est&#xE1; do outro lado.</p><p>Pense assim: um juiz que decide r&#xE1;pido pode ser eficiente ou pode estar ignorando o contradit&#xF3;rio. De fora, a velocidade parece igual. O que distingue os dois n&#xE3;o &#xE9; o resultado &#x2014; &#xE9; o processo. O rito existe para que a decis&#xE3;o possa ser verificada, contestada, e eventualmente corrigida. Sem ele, n&#xE3;o h&#xE1; decis&#xE3;o &#x2014; h&#xE1; decreto.</p><p>Organiza&#xE7;&#xF5;es que confundem autonomia com aus&#xEA;ncia de processo acumulam decis&#xF5;es que n&#xE3;o podem ser questionadas. E decis&#xF5;es que n&#xE3;o podem ser questionadas n&#xE3;o aprendem. N&#xE3;o evoluem. Cristalizam os erros do momento em que foram tomadas.</p><hr><h2 id="a-mensagem-que-representa-a-organiza%C3%A7%C3%A3o">A mensagem que representa a organiza&#xE7;&#xE3;o</h2><p>Todo comunicado emitido por quem tem autoridade fala em nome da institui&#xE7;&#xE3;o &#x2014; n&#xE3;o em nome da pessoa. Esse &#xE9; um princ&#xED;pio que parece &#xF3;bvio e que &#xE9; violado com frequ&#xEA;ncia surpreendente.</p><p>Quando um gestor escreve com frustra&#xE7;&#xE3;o, a organiza&#xE7;&#xE3;o fica frustrada. Quando amea&#xE7;a, a organiza&#xE7;&#xE3;o amea&#xE7;a. Quando exp&#xF5;e algu&#xE9;m antes de apurar, a organiza&#xE7;&#xE3;o exp&#xF5;e. A assinatura pessoal n&#xE3;o isola o ato &#x2014; amplifica o cargo.</p><p>Isso cria uma responsabilidade assim&#xE9;trica que poucos gestores internalizam: voc&#xEA; n&#xE3;o precisa ter inten&#xE7;&#xE3;o ruim para causar dano institucional. Basta ter um mau momento e um canal aberto.</p><p>O teste &#xE9; simples &#x2014; e vale para qualquer organiza&#xE7;&#xE3;o, de qualquer tamanho:</p><blockquote><em>Se essa mensagem fosse publicada amanh&#xE3; num ve&#xED;culo de imprensa, a organiza&#xE7;&#xE3;o ficaria bem representada?</em></blockquote><p>Se a resposta for n&#xE3;o &#x2014; a mensagem n&#xE3;o est&#xE1; pronta.</p><hr><h2 id="canal-%C3%A9-poder-n%C3%A3o-log%C3%ADstica">Canal &#xE9; poder, n&#xE3;o log&#xED;stica</h2><p>A escolha de canal n&#xE3;o &#xE9; operacional. &#xC9; pol&#xED;tica.</p><p>Quando uma notifica&#xE7;&#xE3;o formal &#xE9; enviada por WhatsApp num grupo coletivo &#xE0;s duas da manh&#xE3;, a mensagem t&#xE9;cnica pode estar correta. Mas a mensagem institucional &#xE9;: <em>&quot;As regras aqui s&#xE3;o definidas por quem tem o celular na m&#xE3;o.&quot;</em></p><p>Canal define validade. Canal define urg&#xEA;ncia. Canal define quem tem acesso &#xE0; informa&#xE7;&#xE3;o e em que condi&#xE7;&#xF5;es. Usar o canal errado n&#xE3;o &#xE9; s&#xF3; ineficiente &#x2014; &#xE9; uma declara&#xE7;&#xE3;o sobre como o poder funciona ali.</p><p>Organiza&#xE7;&#xF5;es maduras t&#xEA;m canais diferenciados porque entendem que nem toda comunica&#xE7;&#xE3;o tem o mesmo peso, o mesmo destinat&#xE1;rio ou o mesmo efeito. Uma urg&#xEA;ncia operacional e uma penalidade formal s&#xE3;o atos de natureza completamente diferente. Trat&#xE1;-los pelo mesmo canal, no mesmo tom, no mesmo hor&#xE1;rio, n&#xE3;o &#xE9; simplicidade &#x2014; &#xE9; confus&#xE3;o deliberada ou descuido que produz o mesmo resultado.</p><hr><h2 id="exposi%C3%A7%C3%A3o-antes-de-apura%C3%A7%C3%A3o-%C3%A9-o-erro-mais-caro">Exposi&#xE7;&#xE3;o antes de apura&#xE7;&#xE3;o &#xE9; o erro mais caro</h2><p>Existe um padr&#xE3;o de comportamento em organiza&#xE7;&#xF5;es com cultura punitiva que antecede qualquer multa, qualquer advert&#xEA;ncia, qualquer processo: a exposi&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica do suspeito.</p><p>&#xC9; o comunicado que delimita quem provavelmente foi. O e-mail que menciona o departamento antes da investiga&#xE7;&#xE3;o concluir. A reuni&#xE3;o onde o nome aparece antes da conversa individual. A foto postada com a placa vis&#xED;vel antes da notifica&#xE7;&#xE3;o entregue.</p><p>Em todos esses casos, o racioc&#xED;nio impl&#xED;cito &#xE9; o mesmo: <em>&quot;Eu sei que foi essa pessoa, ent&#xE3;o estou apenas comunicando um fato.&quot;</em> O problema &#xE9; que &quot;provavelmente&quot;, &quot;possivelmente&quot; e &quot;quase certamente&quot; n&#xE3;o s&#xE3;o &quot;confirmado&quot;. E expor com base em probabilidade, em canal coletivo, antes do processo &#x2014; &#xE9; constrangimento p&#xFA;blico de algu&#xE9;m que pode ser inocente.</p><p>O custo disso raramente aparece imediatamente. Aparece quando a pessoa inocente que foi exposta decide que tem raz&#xE3;o suficiente para processar. Aparece quando quem era culpado contesta a penalidade porque o processo foi contaminado pela exposi&#xE7;&#xE3;o pr&#xE9;via. Aparece quando o ambiente que todos dizem querer preservar se deteriora porque as pessoas aprenderam que qualquer um pode ser o pr&#xF3;ximo alvo &#x2014; antes de qualquer prova.</p><p>Identificar discretamente, contatar individualmente, formalizar com base em evid&#xEA;ncia: &#xE9; mais lento. &#xC9; mais trabalho. E &#xE9; o &#xFA;nico caminho que n&#xE3;o cria passivo enquanto resolve o problema.</p><hr><h2 id="completude-n%C3%A3o-%C3%A9-perfeccionismo-%E2%80%94-%C3%A9-respeito">Completude n&#xE3;o &#xE9; perfeccionismo &#x2014; &#xE9; respeito</h2><p>Uma mensagem incompleta transfere o custo de sua incompletude para quem a recebe.</p><p><em>&quot;Elevador parado.&quot;</em> &#x2014; E agora? Espero? Uso o outro? Levo o lixo pela escada? Aviso o funcion&#xE1;rio que precisa sair?</p><p><em>&quot;Reuni&#xE3;o amanh&#xE3;.&quot;</em> &#x2014; Que horas? Onde? Preciso me preparar?</p><p><em>&quot;Irregularidade identificada.&quot;</em> &#x2014; Qual? Em qual norma? O que preciso fazer?</p><p>Cada pergunta que uma mensagem incompleta gera tem um custo: o tempo de quem pergunta, o tempo de quem responde, a interrup&#xE7;&#xE3;o de todos que est&#xE3;o no canal onde a pergunta foi feita. Em organiza&#xE7;&#xF5;es com muitos stakeholders &#x2014; e condom&#xED;nios s&#xE3;o um exemplo perfeito disso &#x2014; esse custo se multiplica pelo n&#xFA;mero de pessoas afetadas.</p><p>Completude n&#xE3;o &#xE9; escrever mais. &#xC9; responder, antes de enviar, as quatro perguntas que qualquer comunicado precisa responder: o qu&#xEA; aconteceu, por qu&#xEA; importa, o que muda a partir de agora, e o que acontece se n&#xE3;o mudar. Quatro perguntas. Uma checagem de trinta segundos que elimina dez minutos de ru&#xED;do coletivo.</p><hr><h2 id="o-paradoxo-da-autoridade-informal">O paradoxo da autoridade informal</h2><p>Gestores que contornam processos frequentemente o fazem porque acreditam que isso demonstra for&#xE7;a. Decis&#xE3;o r&#xE1;pida. Resultado imediato. Sem a lentid&#xE3;o do rito.</p><p>O paradoxo &#xE9; que o efeito &#xE9; o oposto.</p><p>Autoridade exercida fora do processo n&#xE3;o se acumula &#x2014; se consome. Cada vez que o rito &#xE9; contornado, a decis&#xE3;o depende mais da pessoa e menos da institui&#xE7;&#xE3;o. E uma autoridade que depende s&#xF3; da pessoa que a exerce &#xE9; fr&#xE1;gil por defini&#xE7;&#xE3;o: dura enquanto a pessoa est&#xE1; presente, enquanto ningu&#xE9;m questiona, enquanto o ambiente tolera.</p><p>Autoridade constru&#xED;da dentro do processo &#xE9; diferente. Ela se transfere. Ela se documenta. Ela sobrevive &#xE0; contesta&#xE7;&#xE3;o porque tem respaldo. E ela escala &#x2014; porque n&#xE3;o depende de uma pessoa espec&#xED;fica estar dispon&#xED;vel, de bom humor e com o celular na m&#xE3;o.</p><p>Processos n&#xE3;o limitam l&#xED;deres. Eles multiplicam o alcance de l&#xED;deres que os respeitam.</p><hr><h2 id="o-que-comunica%C3%A7%C3%A3o-revela-sobre-cultura">O que comunica&#xE7;&#xE3;o revela sobre cultura</h2><p>No fim, a forma como uma organiza&#xE7;&#xE3;o se comunica &#xE9; um diagn&#xF3;stico, n&#xE3;o um sintoma.</p><p>Comunica&#xE7;&#xE3;o impulsiva revela cultura sem processo. Exposi&#xE7;&#xE3;o antes de apura&#xE7;&#xE3;o revela cultura punitiva. Inconsist&#xEA;ncia entre mensagens revela falta de alinhamento interno. Mensagens incompletas revelam desprezo pelo tempo de quem recebe. Tom agressivo revela lideran&#xE7;a que confunde autoridade com intimida&#xE7;&#xE3;o.</p><p>E o inverso tamb&#xE9;m &#xE9; verdade.</p><p>Comunica&#xE7;&#xE3;o objetiva e institucional revela organiza&#xE7;&#xE3;o que entende seus limites. Rito antes de exposi&#xE7;&#xE3;o revela cultura que respeita o contradit&#xF3;rio. Consist&#xEA;ncia revela alinhamento. Completude revela respeito. Tom administrativo revela maturidade institucional.</p><p>Voc&#xEA; n&#xE3;o precisa fazer uma auditoria de cultura para entender como uma organiza&#xE7;&#xE3;o funciona. Basta ler o que ela escreve quando algo d&#xE1; errado.</p><hr><h2 id="uma-regra-no-fim-de-tudo">Uma regra, no fim de tudo</h2><p>Se tudo que foi dito aqui pudesse ser reduzido a uma &#xFA;nica orienta&#xE7;&#xE3;o, seria esta:</p><p><strong>Antes de enviar, pergunte: isso representa a organiza&#xE7;&#xE3;o que queremos ser &#x2014; ou a organiza&#xE7;&#xE3;o que estamos sendo no pior momento?</strong></p><p>A diferen&#xE7;a entre as duas respostas &#xE9; a diferen&#xE7;a entre governan&#xE7;a e gest&#xE3;o por impulso. Entre autoridade que dura e poder que se gasta. Entre uma organiza&#xE7;&#xE3;o em que as pessoas confiam e uma organiza&#xE7;&#xE3;o que as pessoas apenas toleram.</p><p>Comunica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; governan&#xE7;a. E governan&#xE7;a &#xE9; escolha &#x2014; feita uma mensagem de cada vez.</p><hr><p><em>Esse artigo foi escrito a partir de observa&#xE7;&#xF5;es sobre padr&#xF5;es de comunica&#xE7;&#xE3;o em ambientes com estrutura de governan&#xE7;a compartilhada. Os princ&#xED;pios se aplicam a qualquer organiza&#xE7;&#xE3;o onde m&#xFA;ltiplos stakeholders dependem de comunica&#xE7;&#xE3;o clara, processos respeitados e autoridade exercida dentro de limites institucionais.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que devemos saber antes de enviar uma mensagem]]></title><description><![CDATA[Escrevemos como falamos — e as duas coisas não são a mesma coisa. No texto, cada mensagem é uma interrupção. Sem tom de voz, sem expressão, sem contexto: o problema fica com quem lê.]]></description><link>https://andre.guergolet.com.br/manifesto-mensagem-objetiva/</link><guid isPermaLink="false">69e67aa7311a6c00017bdced</guid><category><![CDATA[Reflexões]]></category><dc:creator><![CDATA[André Guergolet]]></dc:creator><pubDate>Mon, 20 Apr 2026 19:30:00 GMT</pubDate><media:content url="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/04/maxresdefault--1-.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote>Baseado em princ&#xED;pios do <a href="https://nohello.net/pt-br/?ref=andre.guergolet.com.br">nohello.net</a> e alinhado ao <a href="https://about.gitlab.com/blog/the-remote-manifesto/?ref=andre.guergolet.com.br">Remote Manifesto da GitLab</a></blockquote><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/04/maxresdefault--1-.jpg" alt="O que devemos saber antes de enviar uma mensagem"><p>Trabalho remotamente h&#xE1; anos, e a comunica&#xE7;&#xE3;o ass&#xED;ncrona passou a fazer parte de quase todas as esferas da vida. Minha filha de 8 anos pega o celular da m&#xE3;e para me mandar mensagem quando quer perguntar algo. &#xC9; natural que isso aconte&#xE7;a &#x2014; o que ainda me pega &#xE0;s vezes &#xE9; perceber que a gente escreve como fala, e as duas coisas n&#xE3;o s&#xE3;o a mesma coisa.</p><p>Na fala, o outro est&#xE1; presente. Voc&#xEA; fragmenta, pausa, completa &#x2014; e tudo bem, porque existe troca em tempo real. No texto, cada mensagem enviada &#xE9; uma notifica&#xE7;&#xE3;o independente: no celular, no computador, &#xE0;s vezes no rel&#xF3;gio de pulso. N&#xE3;o &#xE9; um recado deixado numa superf&#xED;cie. &#xC9; uma interrup&#xE7;&#xE3;o.</p><p>O sintoma mais vis&#xED;vel &#xE9; o &quot;Oi&quot; isolado &#x2014; uma mensagem sem conte&#xFA;do, que for&#xE7;a o outro a responder antes de voc&#xEA; dizer o que precisa. O site nohello.net trata exatamente disso, e mesmo assim o comportamento persiste. Mas o &quot;Oi&quot; &#xE9; o caso mais &#xF3;bvio. O que considero mais problem&#xE1;tico na pr&#xE1;tica &#x2014; e que eu mesmo fa&#xE7;o com frequ&#xEA;ncia &#x2014; &#xE9; chegar com a hip&#xF3;tese antes de explicar o problema.</p><p><em>&quot;Acho que o servidor caiu?&quot;</em></p><p>Quando voc&#xEA; abre com um diagn&#xF3;stico, quem vai te ajudar come&#xE7;a a confirmar ou refutar a sua teoria, em vez de olhar o problema com olhos frescos. A an&#xE1;lise j&#xE1; est&#xE1; contaminada antes de come&#xE7;ar. Faz mais sentido descrever o que voc&#xEA; observou, mostrar o que j&#xE1; tentou, e deixar espa&#xE7;o para o outro enxergar o que voc&#xEA; n&#xE3;o viu:</p><p><em>&quot;Estou sem acesso ao sistema desde as 14h. J&#xE1; reiniciei e troquei de rede, sem resultado. Consegue me ajudar a entender o que pode ser?&quot;</em></p><p>Isso n&#xE3;o &#xE9; falta de objetividade &#x2014; &#xE9; respeito pelo racioc&#xED;nio do outro e, na pr&#xE1;tica, chega mais r&#xE1;pido &#xE0; solu&#xE7;&#xE3;o.</p><hr><p><strong>Outros pontos que aprendi, &#xE0;s vezes da forma dif&#xED;cil:</strong></p><p><strong>Urg&#xEA;ncia precisa ser declarada.</strong> No remoto, ningu&#xE9;m v&#xEA; sua express&#xE3;o nem sente o ritmo da situa&#xE7;&#xE3;o. Se voc&#xEA; n&#xE3;o diz que &#xE9; urgente &#x2014; e por qu&#xEA; &#x2014; essa informa&#xE7;&#xE3;o simplesmente n&#xE3;o existe para o outro. <em>&quot;Preciso disso at&#xE9; 14h, tenho reuni&#xE3;o com o cliente logo depois&quot;</em> &#xE9; completamente diferente de mandar a mesma solicita&#xE7;&#xE3;o sem contexto.</p><p><strong>Confirmar recebimento n&#xE3;o &#xE9; confirmar entrega.</strong> Um &#x1F44D; pode ser lido como comprometimento com um prazo que voc&#xEA; n&#xE3;o assumiu conscientemente. Se voc&#xEA; viu a mensagem mas n&#xE3;o consegue resolver agora, o correto &#xE9; dizer: <em>&quot;Vi, mas s&#xF3; consigo olhar amanh&#xE3; de manh&#xE3;.&quot;</em> Parece detalhe. Evita muita confus&#xE3;o.</p><p><strong>O que n&#xE3;o est&#xE1; escrito, n&#xE3;o aconteceu.</strong> Alinharam em call e chegaram a um acordo? Algu&#xE9;m precisa registrar no canal: o qu&#xEA;, quando e quem &#xE9; respons&#xE1;vel. Mem&#xF3;ria &#xE9; seletiva &#x2014; quando algo der errado, as vers&#xF5;es do que foi combinado raramente v&#xE3;o coincidir.</p><p><strong>Em grupo, voc&#xEA; n&#xE3;o est&#xE1; falando com uma pessoa.</strong> Escreva como se a mensagem pudesse ser lida por quem voc&#xEA; menos espera &#x2014; porque eventualmente ser&#xE1;. Tom, conte&#xFA;do e n&#xED;vel de detalhe precisam ser calibrados para o contexto coletivo, n&#xE3;o para a sua rela&#xE7;&#xE3;o com uma das pessoas do grupo.</p><p></p><p>N&#xE3;o estou defendendo frieza ou formalidade. Estou dizendo que comunica&#xE7;&#xE3;o escrita exige mais aten&#xE7;&#xE3;o do que a falada &#x2014; n&#xE3;o menos. Voc&#xEA; escreve uma vez, o outro l&#xEA; no tempo dele, sem o seu tom de voz, sem a sua express&#xE3;o. Se o que voc&#xEA; escreveu n&#xE3;o tiver contexto suficiente, voc&#xEA; transferiu o problema para quem est&#xE1; lendo.</p><p>A maioria das pessoas n&#xE3;o faz isso com m&#xE1; inten&#xE7;&#xE3;o. &#xC9; h&#xE1;bito: aprendemos a nos comunicar falando, e replicamos isso no texto sem perceber. Mudar n&#xE3;o exige ferramenta nova. Exige um segundo de aten&#xE7;&#xE3;o antes de apertar enter.</p><h2 id="na-pr%C3%A1tica"><strong>Na pr&#xE1;tica:</strong></h2>
<!--kg-card-begin: html-->
<table class="min-w-full border-collapse text-sm leading-[1.7] whitespace-normal"><thead class="text-left"><tr><th scope="col" class="text-text-100 border-b-0.5 border-border-300/60 py-2 pr-4 align-top font-bold">Situa&#xE7;&#xE3;o</th><th scope="col" class="text-text-100 border-b-0.5 border-border-300/60 py-2 pr-4 align-top font-bold">&#x274C; Evite</th><th scope="col" class="text-text-100 border-b-0.5 border-border-300/60 py-2 pr-4 align-top font-bold">&#x2705; Prefira</th></tr></thead><tbody><tr><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top">Iniciar conversa</td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>&quot;Oi&quot;</em></td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>&quot;Oi, preciso de ajuda com X &#x2014; tem um minuto?&quot;</em></td></tr><tr><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top">Reportar um problema</td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>&quot;Acho que o servidor caiu?&quot;</em></td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>&quot;Sem acesso desde 14h. J&#xE1; reiniciei e troquei de rede. Consegue ajudar?&quot;</em></td></tr><tr><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top">Sinalizar urg&#xEA;ncia</td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>&quot;Preciso do relat&#xF3;rio.&quot;</em></td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>&quot;Preciso at&#xE9; 14h &#x2014; reuni&#xE3;o com cliente logo depois.&quot;</em></td></tr><tr><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top">Confirmar recebimento</td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top">&#x1F44D;</td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>&quot;Vi, mas s&#xF3; consigo olhar amanh&#xE3; de manh&#xE3;.&quot;</em></td></tr><tr><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top">Registrar decis&#xE3;o</td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>(nada)</em></td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>&quot;Combinado: faremos X. Prazo: sexta. Respons&#xE1;vel: Jo&#xE3;o.&quot;</em></td></tr><tr><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top">Mandar mensagem longa</td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>(6 mensagens separadas)</em></td><td class="border-b-0.5 border-border-300/30 py-2 pr-4 align-top"><em>(1 mensagem com ALT+ENTER para quebrar linhas)</em></td></tr></tbody></table>
<!--kg-card-end: html-->
<p><strong>Resumindo:</strong> descreva o problema antes de oferecer a solu&#xE7;&#xE3;o. Declare urg&#xEA;ncia quando ela existir. Escreva uma vez, escreva completo. Registre o que foi decidido. Em grupo, calibre o tom para o contexto coletivo.</p><p>Comunica&#xE7;&#xE3;o escrita n&#xE3;o &#xE9; transcri&#xE7;&#xE3;o de pensamento. &#xC9; responsabilidade com o tempo e o foco do outro.</p><h2 id="uma-nota-sobre-ia"><strong>Uma nota sobre IA</strong></h2><p>A mesma l&#xF3;gica se aplica quando voc&#xEA; interage com um assistente de IA. Mandar o contexto picado em v&#xE1;rias mensagens, abrir com o diagn&#xF3;stico antes de descrever o problema, ou omitir informa&#xE7;&#xF5;es relevantes &#x2014; tudo isso afeta a qualidade da resposta. O modelo trabalha com o que recebeu: se o input for parcial ou j&#xE1; direcionado por uma hip&#xF3;tese, a resposta vai refletir isso. Al&#xE9;m disso, mensagens fragmentadas consomem mais tokens sem agregar contexto &#xFA;til. <em>Escreva uma vez, escreva completo</em> vale aqui tamb&#xE9;m.</p><hr><p><em>Refer&#xEA;ncias: nohello.net e o Remote Manifesto da GitLab.Refer&#xEA;ncias: </em><a href="https://nohello.net/pt-br/?ref=andre.guergolet.com.br"><em>nohello.net</em></a><em> e o </em><a href="https://about.gitlab.com/blog/the-remote-manifesto/?ref=andre.guergolet.com.br"><em>Remote Manifesto da GitLab</em></a><em>.</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre a Engenharia e a Coragem de ser o Idiota]]></title><description><![CDATA[Raramente compartilho algo, mas achei esse texto interessante e já aviso: não é sobre IA. É sobre um comportamento curioso que observo em times de tecnologia.]]></description><link>https://andre.guergolet.com.br/sobre-a-engenharia-e-a-coragem-de-ser-o-idiota/</link><guid isPermaLink="false">69cdc63d515985000106189c</guid><category><![CDATA[Reflexões]]></category><dc:creator><![CDATA[André Guergolet]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Apr 2026 01:37:35 GMT</pubDate><media:content url="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/04/unnamed.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/04/unnamed.jpg" alt="Sobre a Engenharia e a Coragem de ser o Idiota"><p>Raramente compartilho algo, mas achei esse texto interessante e j&#xE1; aviso: n&#xE3;o &#xE9; sobre IA. &#xC9; sobre um comportamento curioso que observo em times de tecnologia.</p><p>As pessoas preferem parecer inteligentes a reduzir a probabilidade de estarem erradas. Parece sutil, mas n&#xE3;o &#xE9;. O s&#xEA;nior evita perguntar porque, em teoria, deveria saber. O j&#xFA;nior evita perguntar porque quer demonstrar que estudou o suficiente para estar ali. No meio disso, todos seguimos adiante com peda&#xE7;os incompletos de contexto. &#xC9; como algu&#xE9;m que monta um m&#xF3;vel olhando apenas metade do manual. &#xC0;s vezes funciona. Na maioria das vezes nasce uma arquitetura estranha, um fluxo mal interpretado ou um bug que ningu&#xE9;m entende de onde veio.</p><p>Curiosamente, quase sempre existe um momento anterior onde uma pergunta simples teria evitado tudo &#x2014; mas ningu&#xE9;m quis ser &#x201C;o idiota da sala&#x201D;.</p><p>Li um artigo recentemente, o<a href="https://luminousmen.substack.com/p/be-the-idiot?ref=andre.guergolet.com.br" rel="noopener"><strong>Be the idiot</strong></a>, que trata exatamente disso. Existe uma esp&#xE9;cie de vergonha operacional em admitir ignor&#xE2;ncia. Engenharia de software, apesar de todo o discurso racional, ainda carrega muito teatro de compet&#xEA;ncia. S&#xF3; que sistemas complexos n&#xE3;o ligam para reputa&#xE7;&#xE3;o; eles respondem apenas &#xE0; causalidade. Contexto incompleto somado a uma suposi&#xE7;&#xE3;o confiante &#xE9; a f&#xF3;rmula para o erro sofisticado.</p><p>Perguntar cedo parece burrice por alguns minutos; n&#xE3;o perguntar cria semanas de investiga&#xE7;&#xE3;o depois. &#xC9; por isso que gosto dessa ideia de &#x201C;ser o idiota&#x201D;.</p><p>O autor cita o protocolo militar, onde a repeti&#xE7;&#xE3;o da informa&#xE7;&#xE3;o &#xE9; obrigat&#xF3;ria. N&#xE3;o &#xE9; porque o receptor &#xE9; incapaz, mas porque confirmar o entendimento &#xE9; mais importante do que parecer esperto. Na nossa &#xE1;rea, isso significa ser irritantemente espec&#xED;fico: &quot;Update de qual schema? No source ou no warehouse? O que acontece quando falhar?&quot;.</p><p>O &quot;idiota&quot; pergunta o &#xF3;bvio, desmonta premissas e &#xE0;s vezes interrompe a reuni&#xE3;o com algo desconfortavelmente simples. Mas &#xE9; quase sempre essa pergunta que revela que metade da sala estava apenas fingindo entender.</p><p>&#xC9; claro que nem sempre me lembro de ser o idiota e acabo cedendo ao ego. Mas, na minha vis&#xE3;o, como grupo social, precisamos habilitar as pessoas para que elas pensem e tenham essas preocupa&#xE7;&#xF5;es com a clareza. Sua fun&#xE7;&#xE3;o como engenheiro n&#xE3;o &#xE9; soar brilhante em reuni&#xF5;es, &#xE9; construir a coisa certa. E voc&#xEA; n&#xE3;o constr&#xF3;i a coisa certa se n&#xE3;o estiver disposto a parecer est&#xFA;pido o suficiente para entender o que &quot;certo&quot; realmente significa.</p><p>Valorizo &quot;os idiotas&quot;.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Realismos]]></title><description><![CDATA[<blockquote>Todos os graffitis de realismo feitos at&#xE9; o &#xED;nicio de 2026 </blockquote><figure class="kg-card kg-gallery-card kg-width-wide"><div class="kg-gallery-container"><div class="kg-gallery-row"><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20211009_114527-1.jpg" width="2000" height="2667" loading="lazy" alt srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20211009_114527-1.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/20211009_114527-1.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/20211009_114527-1.jpg 1600w, 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src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20260215_144316.jpg" width="2000" height="2667" loading="lazy" alt srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20260215_144316.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/20260215_144316.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/20260215_144316.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/03/20260215_144316.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/IMG_9827-1.JPG" width="2000" height="1333" loading="lazy" alt srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/IMG_9827-1.JPG 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/IMG_9827-1.JPG 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/IMG_9827-1.JPG 1600w, 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isPermaLink="false">69ade8c115da95000189fc7b</guid><category><![CDATA[Galeria]]></category><dc:creator><![CDATA[André Guergolet]]></dc:creator><pubDate>Sun, 08 Mar 2026 21:25:55 GMT</pubDate><media:content url="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20231126_143755.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote>Todos os graffitis de realismo feitos at&#xE9; o &#xED;nicio de 2026 </blockquote><figure class="kg-card kg-gallery-card kg-width-wide"><div class="kg-gallery-container"><div class="kg-gallery-row"><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20211009_114527-1.jpg" width="2000" height="2667" loading="lazy" alt="Realismos" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20211009_114527-1.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/20211009_114527-1.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/20211009_114527-1.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/03/20211009_114527-1.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20220619_153120.jpg" width="2000" height="1500" loading="lazy" alt="Realismos" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20220619_153120.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/20220619_153120.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/20220619_153120.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/03/20220619_153120.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20231102_203035-1.jpg" width="2000" height="2667" loading="lazy" alt="Realismos" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20231102_203035-1.jpg 600w, 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src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20260215_144316.jpg" width="2000" height="2667" loading="lazy" alt="Realismos" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20260215_144316.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/20260215_144316.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/20260215_144316.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/03/20260215_144316.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/IMG_9827-1.JPG" width="2000" height="1333" loading="lazy" alt="Realismos" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/IMG_9827-1.JPG 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/IMG_9827-1.JPG 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/IMG_9827-1.JPG 1600w, 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720px"></div></div></div></figure>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dicotomia do caminho fácil]]></title><description><![CDATA[Escolher o caminho fácil resolve o desconforto imediato, mas quase nunca resolve o problema. Seja criando um filho ou construindo uma empresa, decisões estruturais exigem tempo, paciência e esforço. O que parece lento hoje muitas vezes é o que sustenta o futuro.]]></description><link>https://andre.guergolet.com.br/dicotomia-do-caminho-facil/</link><guid isPermaLink="false">69acdce2f360260001b126fa</guid><category><![CDATA[Reflexões]]></category><dc:creator><![CDATA[André Guergolet]]></dc:creator><pubDate>Sun, 08 Mar 2026 02:26:43 GMT</pubDate><media:content url="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/ChatGPT-Image-7-de-mar.-de-2026--23_26_22.png" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/ChatGPT-Image-7-de-mar.-de-2026--23_26_22.png" alt="Dicotomia do caminho f&#xE1;cil"><p>Alguns anos atr&#xE1;s eu estava em uma roda de conversa com meu amigo Henrique e um pai que estava come&#xE7;ando agora nessa jornada. A conversa girava em torno das dificuldades de ter uma crian&#xE7;a pequena em casa. Noites mal dormidas, choro, d&#xFA;vidas sobre o que fazer em cada situa&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Henrique falava com a tranquilidade de quem j&#xE1; tinha atravessado aquilo algumas vezes. Explicava algo simples, mas que exige disciplina para ser feito. Ele comentava sobre ficar ao lado do ber&#xE7;o, acalmando o beb&#xEA; de outras formas para que ele aprenda a dormir e se regular sozinho. N&#xE3;o recorrer imediatamente &#xE0; chupeta ou &#xE0; mamadeira apenas para encerrar o choro.</p><p>A ideia n&#xE3;o &#xE9; parar o choro o mais r&#xE1;pido poss&#xED;vel. A ideia &#xE9; ensinar a crian&#xE7;a a atravessar aquele estado.</p><p>Comentei tamb&#xE9;m a minha experi&#xEA;ncia. Minha filha hoje dorme sozinha e relativamente r&#xE1;pido. Isso n&#xE3;o surgiu de forma espont&#xE2;nea, foi resultado de repeti&#xE7;&#xE3;o, paci&#xEA;ncia e algumas noites em claro no in&#xED;cio. No curto prazo sempre parece mais racional resolver o problema em dez segundos, mas quase sempre essas decis&#xF5;es r&#xE1;pidas cobram um pre&#xE7;o depois.</p><hr><h3 id="as-armadilhas-do-caminho-f%C3%A1cil">As armadilhas do caminho f&#xE1;cil</h3><p>Existe uma tenta&#xE7;&#xE3;o constante de escolher o caminho mais simples. Isso aparece na cria&#xE7;&#xE3;o dos filhos e aparece tamb&#xE9;m na gest&#xE3;o de qualquer organiza&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Quando um beb&#xEA; chora, a solu&#xE7;&#xE3;o imediata costuma ser dar o que ele quer. No curto prazo o problema desaparece. Mas a crian&#xE7;a aprende algo junto com isso: qualquer desconforto pode ser resolvido exigindo uma gratifica&#xE7;&#xE3;o imediata.</p><p>Na minha opini&#xE3;o, esse tipo de decis&#xE3;o cria um ciclo que depois &#xE9; dif&#xED;cil de quebrar.</p><p>&#xC9; como colocar um curativo em uma ferida profunda sem tratar a causa. A superf&#xED;cie parece resolvida, mas a estrutura continua comprometida. Mais cedo ou mais tarde o problema volta.</p><p>Inclusive existe um outro caminho f&#xE1;cil muito comum na cria&#xE7;&#xE3;o dos filhos: transferir toda responsabilidade para a m&#xE3;e. &#xC9; uma escolha silenciosa, mas ainda assim &#xE9; uma escolha. E como qualquer decis&#xE3;o na vida, ela tamb&#xE9;m produz consequ&#xEA;ncias.</p><p>Criar um filho &#xE9; um processo de participa&#xE7;&#xE3;o ativa. N&#xE3;o &#xE9; algo que possa ser delegado integralmente.</p><hr><h3 id="dificuldades-revelam-estrutura">Dificuldades revelam estrutura</h3><p>Epicteto tem uma frase que gosto bastante:</p><blockquote>Dificuldades mostram o que os homens s&#xE3;o.</blockquote><p>Educar uma crian&#xE7;a envolve justamente lidar com pequenas dificuldades repetidas diariamente. Ensinar a dormir, ensinar a esperar, ensinar a lidar com frustra&#xE7;&#xE3;o e explicar sentimentos que a pr&#xF3;pria crian&#xE7;a ainda n&#xE3;o entende.</p><p>Explicar emo&#xE7;&#xF5;es para uma crian&#xE7;a pequena exige muito mais esfor&#xE7;o do que levantar a voz ou negociar recompensas para interromper um comportamento.</p><p>Mas o resultado tamb&#xE9;m &#xE9; diferente.</p><p>Com o tempo a crian&#xE7;a aprende a lidar com frustra&#xE7;&#xE3;o e desenvolve autonomia emocional. Isso n&#xE3;o aparece no primeiro dia e nem na primeira semana, mas aparece.</p><hr><h3 id="o-paralelo-com-empresas">O paralelo com empresas</h3><p>Esse mesmo padr&#xE3;o aparece com frequ&#xEA;ncia dentro das empresas.</p><p>Em momentos de crise surge uma press&#xE3;o natural por decis&#xF5;es r&#xE1;pidas. Trocar tecnologia, trocar fornecedor, trocar equipe, lan&#xE7;ar algo incompleto e ajustar depois.</p><p>No curto prazo isso cria uma sensa&#xE7;&#xE3;o de resolu&#xE7;&#xE3;o. No m&#xE9;dio prazo muitas vezes apenas desloca o problema.</p><p>Problemas estruturais raramente s&#xE3;o resolvidos com decis&#xF5;es imediatas. Eles exigem an&#xE1;lise de causa, melhoria de processo, desenvolvimento t&#xE9;cnico e aprendizado organizacional.</p><hr><h3 id="a-ilus%C3%A3o-das-solu%C3%A7%C3%B5es-imediatas">A ilus&#xE3;o das solu&#xE7;&#xF5;es imediatas</h3><p>Existe uma ilus&#xE3;o comum em gest&#xE3;o que &#xE9; acreditar que velocidade &#xE9; sin&#xF4;nimo de progresso, na minha opini&#xE3;o, isso &#xE9; apenas movimento. E n&#xE3;o necessariamente o movimento para a dire&#xE7;&#xE3;o correta.</p><p>Quando um sistema come&#xE7;a a apresentar problemas, a primeira rea&#xE7;&#xE3;o costuma ser trocar a ferramenta ou substituir alguma pe&#xE7;a da estrutura. Em muitos casos a causa real est&#xE1; em outra camada: processo mal definido, treinamento insuficiente ou decis&#xF5;es t&#xE9;cnicas tomadas sem o contexto adequado.</p><p>Resolver a causa &#xE9; mais trabalhoso. Mas evita que o mesmo problema apare&#xE7;a novamente alguns meses depois.</p><hr><h3 id="investimentos-que-n%C3%A3o-aparecem-imediatamente">Investimentos que n&#xE3;o aparecem imediatamente</h3><p>Ensinar uma crian&#xE7;a a lidar com emo&#xE7;&#xF5;es exige tempo e energia. Construir uma cultura t&#xE9;cnica saud&#xE1;vel dentro de uma organiza&#xE7;&#xE3;o tamb&#xE9;m exige.</p><p>Nenhum dos dois produz resultado imediato.</p><p>Mas ambos constroem algo que s&#xF3; aparece depois: estabilidade.</p><p>Organiza&#xE7;&#xF5;es resilientes raramente surgem de decis&#xF5;es impulsivas. Elas s&#xE3;o resultado de v&#xE1;rias decis&#xF5;es dif&#xED;ceis tomadas ao longo do tempo.</p><hr><h3 id="estrat%C3%A9gia">Estrat&#xE9;gia</h3><p>A ess&#xEA;ncia da estrat&#xE9;gia est&#xE1; em compreender profundamente as motiva&#xE7;&#xF5;es, as alternativas dispon&#xED;veis e as restri&#xE7;&#xF5;es do contexto. Isso vale para decis&#xF5;es familiares e para decis&#xF5;es corporativas.</p><p>Tomar decis&#xF5;es estrat&#xE9;gicas significa aceitar que algumas escolhas exigem mais esfor&#xE7;o agora para evitar problemas maiores depois.</p><p>No caso dos pais isso pode significar passar horas ao lado do ber&#xE7;o ensinando uma crian&#xE7;a a dormir. No caso das empresas significa investir em desenvolvimento t&#xE9;cnico, processos e aprendizado cont&#xED;nuo, mesmo quando atalhos parecem mais eficientes.</p><hr><h3 id="reflex%C3%A3o-final">Reflex&#xE3;o final</h3><p>Na cria&#xE7;&#xE3;o de filhos e na gest&#xE3;o de empresas o caminho f&#xE1;cil quase sempre aparece primeiro. O desafio est&#xE1; em perceber quando estamos resolvendo um problema de forma estrutural e quando estamos apenas eliminando um desconforto imediato.</p><p>Aqui n&#xE3;o existe uma resposta universal ou uma f&#xF3;rmula correta. A reflex&#xE3;o principal est&#xE1; nas decis&#xF5;es que tomamos e nos efeitos que essas decis&#xF5;es produzem ao longo do tempo.</p><p>Spinoza resumiu isso de forma simples:</p><blockquote>Todas as coisas excelentes s&#xE3;o t&#xE3;o dif&#xED;ceis quanto raras.</blockquote>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sonhos de Menina]]></title><description><![CDATA[Crianças parecem quietas, mas a mente não está. Essa série nasce observando minha filha dormindo, caminhando ou brincando, tentando imaginar os lugares por onde ela pode estar passando por dentro — sonhos, pensamentos e mundos que existem atrás de um rosto em silêncio.
]]></description><link>https://andre.guergolet.com.br/girl-dreams/</link><guid isPermaLink="false">69a9a7e871d7a40001fa773c</guid><category><![CDATA[Galeria]]></category><dc:creator><![CDATA[André Guergolet]]></dc:creator><pubDate>Thu, 05 Mar 2026 15:57:28 GMT</pubDate><media:content url="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20220502_154414.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20220502_154414.jpg" alt="Sonhos de Menina"><p>Essa s&#xE9;rie come&#xE7;ou com um desenho da minha filha dormindo.</p><p>Crian&#xE7;a dormindo &#xE9; um neg&#xF3;cio estranho. O corpo est&#xE1; parado, mas n&#xE3;o est&#xE1; vazio. O rosto muda, o corpo mexe um pouco, a respira&#xE7;&#xE3;o muda de ritmo. Parece que alguma coisa est&#xE1; acontecendo em outro lugar enquanto ela est&#xE1; ali, quieta. O primeiro desenho veio dessa observa&#xE7;&#xE3;o simples: tentar imaginar por onde ela estava andando naquele momento.</p><p>Depois percebi que essa pergunta n&#xE3;o aparece s&#xF3; quando ela dorme.</p><p>&#xC0;s vezes ela est&#xE1; andando pela casa, brincando, olhando alguma coisa na rua, em sil&#xEA;ncio. A mente claramente est&#xE1; ocupada em algum lugar que n&#xE3;o &#xE9; exatamente o mesmo lugar onde o corpo est&#xE1;. Enquanto ela caminha por a&#xED;, penso a mesma coisa: o que est&#xE1; passando na cabe&#xE7;a dela, o que ela quer, o que ela imagina, que tipo de mundo ela constr&#xF3;i quando ningu&#xE9;m est&#xE1; olhando.</p><p>Nunca perguntei.</p><p>Prefiro imaginar. Essa s&#xE9;rie nasce exatamente desse espa&#xE7;o: tentar desenhar os lugares invis&#xED;veis por onde uma crian&#xE7;a pode estar passando, mesmo quando aparentemente est&#xE1; s&#xF3; parada ou caminhando por a&#xED;.</p><p></p><figure class="kg-card kg-gallery-card kg-width-wide"><div class="kg-gallery-container"><div class="kg-gallery-row"><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20220502_154414-1.jpg" width="2000" height="1500" loading="lazy" alt="Sonhos de Menina" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20220502_154414-1.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/20220502_154414-1.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/20220502_154414-1.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/03/20220502_154414-1.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20231227_153039.jpg" width="2000" height="1500" loading="lazy" alt="Sonhos de Menina" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20231227_153039.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/20231227_153039.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/20231227_153039.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/03/20231227_153039.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div><div class="kg-gallery-image"><img src="https://andre.guergolet.com.br/content/images/2026/03/20240518_114200.jpg" width="2000" height="1500" loading="lazy" alt="Sonhos de Menina" srcset="https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w600/2026/03/20240518_114200.jpg 600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1000/2026/03/20240518_114200.jpg 1000w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w1600/2026/03/20240518_114200.jpg 1600w, https://andre.guergolet.com.br/content/images/size/w2400/2026/03/20240518_114200.jpg 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></div></div></div></figure>]]></content:encoded></item></channel></rss>