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Dicotomia do caminho fácil

Escolher o caminho fácil resolve o desconforto imediato, mas quase nunca resolve o problema. Seja criando um filho ou construindo uma empresa, decisões estruturais exigem tempo, paciência e esforço. O que parece lento hoje muitas vezes é o que sustenta o futuro.

Dicotomia do caminho fácil

Alguns anos atrás eu estava em uma roda de conversa com meu amigo Henrique e um pai que estava começando agora nessa jornada. A conversa girava em torno das dificuldades de ter uma criança pequena em casa. Noites mal dormidas, choro, dúvidas sobre o que fazer em cada situação.

Henrique falava com a tranquilidade de quem já tinha atravessado aquilo algumas vezes. Explicava algo simples, mas que exige disciplina para ser feito. Ele comentava sobre ficar ao lado do berço, acalmando o bebê de outras formas para que ele aprenda a dormir e se regular sozinho. Não recorrer imediatamente à chupeta ou à mamadeira apenas para encerrar o choro.

A ideia não é parar o choro o mais rápido possível. A ideia é ensinar a criança a atravessar aquele estado.

Comentei também a minha experiência. Minha filha hoje dorme sozinha e relativamente rápido. Isso não surgiu de forma espontânea, foi resultado de repetição, paciência e algumas noites em claro no início. No curto prazo sempre parece mais racional resolver o problema em dez segundos, mas quase sempre essas decisões rápidas cobram um preço depois.


As armadilhas do caminho fácil

Existe uma tentação constante de escolher o caminho mais simples. Isso aparece na criação dos filhos e aparece também na gestão de qualquer organização.

Quando um bebê chora, a solução imediata costuma ser dar o que ele quer. No curto prazo o problema desaparece. Mas a criança aprende algo junto com isso: qualquer desconforto pode ser resolvido exigindo uma gratificação imediata.

Na minha opinião, esse tipo de decisão cria um ciclo que depois é difícil de quebrar.

É como colocar um curativo em uma ferida profunda sem tratar a causa. A superfície parece resolvida, mas a estrutura continua comprometida. Mais cedo ou mais tarde o problema volta.

Inclusive existe um outro caminho fácil muito comum na criação dos filhos: transferir toda responsabilidade para a mãe. É uma escolha silenciosa, mas ainda assim é uma escolha. E como qualquer decisão na vida, ela também produz consequências.

Criar um filho é um processo de participação ativa. Não é algo que possa ser delegado integralmente.


Dificuldades revelam estrutura

Epicteto tem uma frase que gosto bastante:

Dificuldades mostram o que os homens são.

Educar uma criança envolve justamente lidar com pequenas dificuldades repetidas diariamente. Ensinar a dormir, ensinar a esperar, ensinar a lidar com frustração e explicar sentimentos que a própria criança ainda não entende.

Explicar emoções para uma criança pequena exige muito mais esforço do que levantar a voz ou negociar recompensas para interromper um comportamento.

Mas o resultado também é diferente.

Com o tempo a criança aprende a lidar com frustração e desenvolve autonomia emocional. Isso não aparece no primeiro dia e nem na primeira semana, mas aparece.


O paralelo com empresas

Esse mesmo padrão aparece com frequência dentro das empresas.

Em momentos de crise surge uma pressão natural por decisões rápidas. Trocar tecnologia, trocar fornecedor, trocar equipe, lançar algo incompleto e ajustar depois.

No curto prazo isso cria uma sensação de resolução. No médio prazo muitas vezes apenas desloca o problema.

Problemas estruturais raramente são resolvidos com decisões imediatas. Eles exigem análise de causa, melhoria de processo, desenvolvimento técnico e aprendizado organizacional.


A ilusão das soluções imediatas

Existe uma ilusão comum em gestão que é acreditar que velocidade é sinônimo de progresso, na minha opinião, isso é apenas movimento. E não necessariamente o movimento para a direção correta.

Quando um sistema começa a apresentar problemas, a primeira reação costuma ser trocar a ferramenta ou substituir alguma peça da estrutura. Em muitos casos a causa real está em outra camada: processo mal definido, treinamento insuficiente ou decisões técnicas tomadas sem o contexto adequado.

Resolver a causa é mais trabalhoso. Mas evita que o mesmo problema apareça novamente alguns meses depois.


Investimentos que não aparecem imediatamente

Ensinar uma criança a lidar com emoções exige tempo e energia. Construir uma cultura técnica saudável dentro de uma organização também exige.

Nenhum dos dois produz resultado imediato.

Mas ambos constroem algo que só aparece depois: estabilidade.

Organizações resilientes raramente surgem de decisões impulsivas. Elas são resultado de várias decisões difíceis tomadas ao longo do tempo.


Estratégia

A essência da estratégia está em compreender profundamente as motivações, as alternativas disponíveis e as restrições do contexto. Isso vale para decisões familiares e para decisões corporativas.

Tomar decisões estratégicas significa aceitar que algumas escolhas exigem mais esforço agora para evitar problemas maiores depois.

No caso dos pais isso pode significar passar horas ao lado do berço ensinando uma criança a dormir. No caso das empresas significa investir em desenvolvimento técnico, processos e aprendizado contínuo, mesmo quando atalhos parecem mais eficientes.


Reflexão final

Na criação de filhos e na gestão de empresas o caminho fácil quase sempre aparece primeiro. O desafio está em perceber quando estamos resolvendo um problema de forma estrutural e quando estamos apenas eliminando um desconforto imediato.

Aqui não existe uma resposta universal ou uma fórmula correta. A reflexão principal está nas decisões que tomamos e nos efeitos que essas decisões produzem ao longo do tempo.

Spinoza resumiu isso de forma simples:

Todas as coisas excelentes são tão difíceis quanto raras.